quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Felinos - parte IV

Finalmente chegamos a quarta e última publicação sobre os felinos do Rio Grande do Sul. Espero que tenham gostado de saber um pouco mais sobre esses animais belíssimos e que, ao contrário de muitos mitos, não são ameaça para o homem.
Volta e meia eu comento que sugestões serão bem-vindas. Pois bem, no site Gengibre (www.gengibre.com.br/) um ouvinte que curtiu esse "bloco" sobre os felinos do RS sugeriu que eu seguisse publicando material sobre felinos, porém os felinos de grande porte. E é o que farei na seqüência. Eu pretendia começar um bloco sobre aves do Rio Grande do Sul, mas vou concluir a família Felidae primeiro. E para quem curte ornitologia, nos próximos dias falaremos sobre as aves silvestres do Rio Grande do Sul, que são portadoras de uma beleza ímpar. Aguardem!


Gato-mourisco (Felis yagouaroundi)
(cerca de 1 m)

É um gato sem manchas, com formas bem diferentes dos demais felinos. A cor é marrom-pardacenta, salpicada com pontinhos mais claros na maior parte do corpo (a ponta dos pêlos é de cor mais clara), havendo muita variação individual.
Devido a esta coloração, forma alongada d corpo, membros curtos (principalmente os anteriores) e a cabeça pequena, é fácil reconhecê-lo.
O gato-mourisco vive em bordas de banhados, beira de rios ou de lagos, mas também pode ser encontrado em lugares secos, com vegetação aberta. Como alimentação, parece dar preferência a presas grandes (em relação ao seu tamanho), tanto mamíferos como aves. Possui uma longa área de distribuição geográfica (desde o Texas, nos EUA, ate a Patagônia, na Argentina).
No Rio Grande do Sul, e uma espécie pouco conhecida popularmente.



Onça (Panthera onca)
(2,2 – 2,7 m; 60 – 130 kg)

É o maior felino americano, denominado, pelos colonizadores europeus, de tigre, devido às semelhanças cm o tigre do Velho Mundo.
Não há dificuldades para a identificação deste mamífero. As manchas grandes e escuras em todo o corpo distinguem-se muito bem do puma. A única possibilidade e confusão que poderia existir, seria com os indivíduos melânicos (totalmente pretos), o que também pode acontecer com o puma. A onça preta também recebe o nome popular de pantera, mas trata-se apenas de uma variação cromática de pelagem, que também tem sido constatada em outras espécies de felinos. No corpo das onças pretas, notam-se facilmente as manchas tão características dos indivíduos de coloração normal.
E um animal robusto no aspecto geral. As pernas são fortes, com patas possantes, cauda relativamente curta, cabeça grande com orelhas arredondadas e corpo musculoso.
Vive em florestas úmidas, normalmente nas proximidades da água. Alimenta-se de várias espécies animais, mas parece ter predileção por capivaras e jacarés.
Para caçar a presa, geralmente ataca por trás, procurando atingir o pescoço e a cabeça no primeiro golpe.
Apesar de ser um felino muito temido pelo homem, não é perigoso. Na proximidade da presença humana, procura fugir e, mesmo em relatos antigos, quando ela era comum em certas localidades, são raros os casos de onças terem atacado seres humanos.
É, atualmente, uma espécie em extinção em toda sua vasta área de distribuição geográfica (registrada cientificamente do norte do Texas até o Rio Grande do Sul). No Estado, ela só existe em determinados Parques Florestais. Como é um animal que necessita de uma grande área para poder sobreviver, já houve casos de indivíduos saírem fora da área dos parques e então serem abatidos.

==> Imagens: - http://www.wildcatsanctuary.org/jpegs/for%20web/jaguarundi.jpg e http://www.vivanatura.org/Panthera_oncaPh1.jpg

==> Textos: SILVA, Flávio. MAMÍFEROS SILVESTRES - RIO GRANDE DO SUL. 2ª ed. Porto Alegre, Fundação Zoobotânica do Rio Gande do Sul, 1994. 246 p.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Pablo Neruda - Cem Sonetos de Amor

Já foram publicados materiais sobre o poeta português Fernando Pessoa, uma dica de leitura e breve biografia do escritor gaúcho Erico Verissimo, e agora chegou a vez de outro poeta que eu gosto muito e que é um dos maiores poetas de nossos tempos: o chileno Pablo Neruda.
Lembrando que o foco do blog é divulgar a cultura e ciência (incluindo meio ambiente, tecnologia e tudo que seja relacionado à vida) do Brasil, porém, teremos exceções de âmbito internacional, como já ocorreu com o material de Fernando Pessoa e agora com Pablo Neruda, que terão seu espaço garantido aqui.
Sugestões de poetas, poetisas, poemas, músicas, músicos, escritores, livros, crônicas e informações culturais de qualquer lugar do Brasil (e mundo) serão muito bem-vindas (cultura_brasileira@hotmail.com).



PABLO NERUDA

O poeta chileno Pablo Neruda (1904 - 1973) foi, sem dúvida, uma das vozes mais altas da poesia mundial do nosso tempo. Ao mesmo tempo, o poeta, engajado nas causas da libertdade, o exilado, o resistente, é protagonista de uma das aventuras mais expressivas da lírica em língua castelhana. Seus poemas de amor - e estes Cem Sonetos de Amor são um dos seus legados mais perfeitos - emocinaram e emocionam várias gerações. Poeta admirado internacionalmente (é personagem do filme O Carteiro e o Poeta), recebeu a consagração definitiva com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1971.

Abaixo vocês poderão apreciar dois dos Cem Sonetos de Amor, versões em espanhol, seguidas da tradução para o português.
XVII

"No te amo como si fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que peopagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y el alma.

Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de si, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendio de la tierra.

Te amo sin saber como, ni cuando, no de donde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
asi te amo perque no se amar de otra manera,

sino asi de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mia,
tan cerca que si cierran tus ojos con mi sueno."

Tradução:

"Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho."

LXVI

"No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de espararte cuando no te espero
pasa mi corazon del frio al fuego.

Te quiero solo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiandote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Tal vez consumira la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazon entero,
robandome la llave del sosiego.

En esta historia solo yo me muero
y morire de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego."
Tradução
"Não te quer senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Te quero só porque a ti te quero,
te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
e a medida de meu amor viageiro
é não ver-te e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de janeiro
seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história só eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor a sangue e fogo."

Fonte das versões em espanhol: http://www.mtholyoke.edu/~htschofi/nerudaes.htm
Fonte das versões em português: NERUDA, Pablo. Cem Sonetos de Amor. Tradução de Carlos Nejar - Porto Alegre: L&PM, 2002.
Imagem: http://www.museosdemexico.org/img/fotos_evento/Homenaje_Sept%208_Bibl_%20PABLO%20NERUDA.jpg

Ana Terra – Erico Verissimo

Para quem aprecia a obra de Erico Verissimo e até mesmo para quem não a conhece, mas gosta de literatura, uma dica muito boa de leitura é o livro Ana Terra. É um romance muito bom de se ler, tanto que comecei ontem e não tenho vontade de parar de lê-lo.

“Palco de acontecimentos históricos de grande importância, as planícies do sul do Brasil são o pano de fundo para o desenrolar da saga de Ana Terra e sua família, que se confunde com a historia da colonização gaúcha. De enorme riqueza humana e interesse sociológico, Ana Terra é mais uma prova do gênio de Erico Verissimo, e irá emocionar os leitores de todas as idades.”

BIOGRAFIA

Erico Verissimo nasceu em Cruz Alta – RS, em 17 de dezembro de 1905. Estudou no Colégio Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre e, de volta à cidade natal, trabalhou por algum tempo num banco, tornando-se depois sócio de uma farmácia. Ali, entre remédios e o namoro com Mafalda Halfen Volpe, que iria desposar em 1931, dedicava as horas vagas à leitura, principalmente de Ibsen, Shakespeare, George Bernard Shaw, Oscar Wilde e Machado de Assis, que muito influenciaram sua formação literária.
Em 1930, tendo seus primeiros contos divulgados em jornais da capital gaúcha (estreou com Ladrão de Gado, na Revista do Globo, em 1928), transferiu-se para lá e ingressou como redator na referida revista.
Em 1932, com a edição de Fantoches, pela Livraria do Globo, iniciou sua brilhante carreira literária, que viria a alcançar, a partir de 1938, repercussão nacional e, mais tarde, internacional.
O escritor falece subitamente no dia 28 de novembro de 1975, deixando inacabada a segunda parte do segundo volume de suas memórias, além de esboços de um romance que se chamaria “A Hora do Sétimo Anjo”.

Algumas de suas obras:

· 1932 – Fantoches – contos
· 1933 – Clarissa – romance
· 1936 – As Aventuras do Avião Vermelho – literatura infantil
· 1938 – O Urso com Música na Barriga – literatura infantil
· 1949 – O Tempo e o Vento (1ª parte) – romance
· 1951 – O Tempo e o Vento (2ª parte) – romance
· 1961/62 – O Tempo e o Vento (3ª parte) – romance
· 1970 – Um Certo Capitão Rodrigo (extrato de O Continente, 1)
· 1971 – Ana Terra (extrato de O Continente, 1)

“Em geral quando termino um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, um misto de alegria, alívio e vaga tristeza. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso ‘Não era bem isto o que queria dizer’.” (Erico Verissimo)

==>Fontes: VERISSIMO, Erico. ANA TERRA. 43 ed. São Paulo: Globo, 1996 (Coleção Aventura de Ler) e http://www.releituras.com/everissimo_bio.asp

Felinos - parte III

Hoje é a terceira e penúltima publicação de material sobre os felinos do Rio Grande do Sul. Se alguém tiver material complementar sobre estas espécies ou sobre espécies de outros estados e quiser compartilhar, as colaborações serão bem-vindas (favor enviar para: cultura_brasileira@hotmail.com).


Gato-do-mato-pequeno (Felis tigrina)
(76 – 83 cm; cerca de 3 kg)

É o gato-do-mato de menor tamanho no Estado. Esbelto, possui cabeça pequena, com focinho afilado. Nas partes superiores do corpo, apresenta manchas e ocelos pretos, de pequeno tamanho. Nos flancos, estas manchas são maiores. Nas pernas, não chegam a formar bandas transversais bem distintas. É possível notar-se traços escuros, mas estes são interrompidos.
Vive em matas. Sua área de ocorrência no Estado ainda é muito mal conhecida, mas sabe-se que o território gaúcho é o extremo sul da distribuição geográfica da espécie.

Gato-maracajá (Felis wiedii)
(78 – 91 cm; cerca de 3 kg)

Espécie que, em coloração e forma das manchas escuras, lembra a jaguatirica, mas é de tamanho bem menor. A cor de fundo, nas partes superiores, é amarela-ocrácea. As manchas pretas são grandes e bem espaçadas. Inferiormente, a cor geral é branca, com manchas pretas alongadas.
No queixo e na garganta, tem duas listras transversais. Na faixa superior do corpo, desde a cabeça até a base da cauda, é de cor mais escura que lateralmente.
No alto do pescoço, o pêlo é, parcialmente, voltado para a frente. Cabeça pequena, com duas listras brancas entre os olhos, que são escuros e arredondados, formam um conjunto bem peculiar à espécie. A cauda é longa e delgada.
Trata-se de um gato de matas altas, densas, ocorrendo principalmente nas regiões de florestas do Estado. Anda no chão e em árvores, alimentando-se de ratos e aves de pequeno e médio porte. Refugia-se em ocos de paus, tocas de outros animais, onde a vegetação é bem cerrada.
Pelas observações de campo, parece ter boa habilidade para caçar ratos à noite, nos locais onde estes estão em atividade. Neste tipo de caça, locomovem-se pelos emaranhados de galhos finos, a pouca altura do chão, lentamente e com bastante segurança; ou ficam imóveis, esperando a aproximação da presa até o alcance de um salto certeiro.

==> Imagens: http://www.wildcatsanctuary.org/jpegs/for%20web/oncilla4.jpg e http://img72.imageshack.us/img72/9987/tigrillofeliswiediiyv1.jpg

==> Textos: SILVA, Flávio. MAMÍFEROS SILVESTRES - RIO GRANDE DO SUL. 2ª ed. Porto Alegre, Fundação Zoobotânica do Rio Gande do Sul, 1994. 246 p.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Poemas - Fernando Pessoa

Como ontem postei a biografia de Fernando Pessoa e alguns poucos poemas de seus heterônimos, hoje sigo postando poemas do livro MENSAGEM.


O das quinas

"Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a gloria com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!

Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.

Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E filho o ungiu."


Ulisses

"O mito é o nada que é tudo.
mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo -
O corpo de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre."


D. Duarte
Rei de Portugal

"Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.

Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri."


A outra asa do grifo
Afonso de Albuquerque

"De pé, sobre os paises conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida u morte,
Tão poderoso que não quer o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha."


Horizonte

"Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praia e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flr o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de lnge a abstrata linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horiznte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade."


Mar Português

"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não e pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."

==> Fonte: PESSOA, Fernando. MENSAGEM: obra poética I; organização, introdução e notas Jane Tutikian. - Porto Alegre: L&PM, 2008. 112 p.